A Importância das Cidades Médias

Ainda utilizando o documento produzido pelo Habitat/ONU a respeito das cidades latino-americanas, o gotaspaulistas destaca a questão da importância das cidades médias para os novos processos que se delineiam no âmbito do desenvolvimento da rede urbana sul americana. Como elemento comparativo, alguns comentários sobre a estruturação da urbanização no Estado de São Paulo.

Segundo o estudo da ONU, a America Latina e o Caribe se caracterizaram pela concentração da população em algumas poucas cidades, que, de uma forma geral, concentraram também a riqueza, as funções socioeconômicas e administrativas e, na maioria dos casos, a condução política. Durante o processo de urbanização, se manteve um modelo urbano no qual uma ou duas cidades principais predominaram sobre o resto.

Uma das questões que mais se destaca no quadro do processo de urbanização brasileiro e que, talvez, ainda seja determinante, é a questão da sua dimensão territorial. Se, em ambos os casos de colonização – espanhóis e portugueses – possuíam parcos recursos humanos e econômicos para empreender a ocupação nas Américas, seguramente a posição de Portugal foi a mais precária.

A Espanha encontrou ouro rapidamente, apenas iniciado o processo de dominação territorial, enquanto Portugal só foi ter acesso a esta riqueza cerca de 200 anos depois. A segunda questão foi o do entendimento da dimensão do empreendimento do processo brasileiro. O suceder dos ciclos econômicos empreendidos pelos portugueses indicam a dificuldade de manter a integridade do patrimônio territorial conquistado e do ônus desta manutenção.

Durante os primeiros anos da oficialização do seu “descobrimento”, Portugal somente praticou uma política de extração do pau-brasil – um colorante vegetal de utilidade na nascente indústria têxtil européia. Somente depois deste período é que ocorreu a subdivisão territorial denominada de “capitanias” – algo bastante assemelhado ao regime feudal –  onde o ônus da colonização cabia ao feudatário, restando à coroa portuguesa o pagamento de taxas e impostos.

Encontrando enormes dificuldades no processo de ocupação do território e o alto custo para manter o seu domínio para o reino de Portugal, colonizadores e investidores privados não puderam ampliar a nascente rede de cidades necessária ao apoio das propostas de atividades econômicas para o Brasil – a plantação extensiva da cana de açúcar.

Dessa maneira, a despeito da imensa disponibilidade de espaço, o Brasil só vai dar início a uma ocupação de fato com o início do ciclo do ouro em 1690. Segundo Nestor Goulart, a mineração, por ser atividade altamente dependente das funções urbanas, finalmente desencadeará a implantação de novos núcleos urbanos ao longo das principais rotas de transporte nacional, por meio da especialização funcional da recém montada rede de cidades, necessárias à manutenção do crescente contingente populacional.

Diante deste início fica patente a dificuldade do surgimento de níveis intermediários de urbanização, em um cenário onde sobravam espaços mas faltavam recursos humanos e materiais.

Dessa maneira, só podemos falar em cidades médias a partir do momento em que a divisão regional de atividades passa a fazer parte do cotidiano da vida das cidades, o que significa, a partir do ciclo econômico liderado pelas atividades cafeeiras cujo principal pólo de atividades se sediaria no Estado de São Paulo.

Segundo o relatório do Habitat publicado pela ONU, o tamanho do país, sua geografia, seu grau de integração territorial – definidas pelas condições de infra-estrutura e território, as atividades econômicas e a maturidade do processo de urbanização foram determinantes para a formação de concentrações de população e economias principais.Fatores deste tipo podem explicar, por exemplo, que uma cidade que não é capital do país possua maior peso demográfico ou econômico, tal como ocorre com Guayaquil, cuja localização e sua própria história a transformaram na capital comercial do Equador.

 

O relatório apresenta também um novo panorama urbano que está acontecendo na América Latina – o cenário onde se dá a ascensão das novas metrópoles. Segundo o Habitat , em períodos recentes, a expansão física das grandes cidades e o concomitante desenvolvimento econômico propiciaram o aparecimento de novas expressões urbanas sobre o território e consolidado fenômenos tais como a conurbação, as áreas metropolitanas , as mega regiões e os corredores urbanos.

Sob a ótica da pendularidade – fenômeno que se mede a partir dos destinos mapeados das populações – a modificação nos processos de deslocamentos explica o crescimento das regiões metropolitanas, conforme apresenta o estudo sobre a Baixada Santista realizado pelo NEPO – Núcleo de Estudo das Populações da UNICAMP: “Deve-se ressaltar que as intensas alterações no elemento migratório se iniciaram com a transição de um tipo predominantemente rural-urbano para modalidades diversas, que foram concomitantemente ganhando e perdendo força ao longo dos anos. Como já é consenso entre os pesquisadores de migração, em meio a essa pluralidade de deslocamentos populacionais, as movimentações de distâncias mais longas, que, por sua vez, foram predominantes por algum tempo, perderam lugar no cenário migratório para que as modalidades de distâncias mais curtas, em especial a intrametropolitana, se destacassem nessa configuração”. (Uma periferia, dois centros: mobilidade populacional e expansão urbana em Praia Grande, RM da Baixada Santista  por Ana Paula Rocha dos Santos  e José Marcos Pinto da Cunha).

Dessa maneira, muda a configuração urbana mas, especialmente, muda-se a forma de de se viver e de se relacionar dentro das grandes concentrações. Novas gerações serão criadas de maneira imensamente diferente da forma com que seus pais e seus avós viviam. Só não sabemos se este novo formato de cidades gerará melhores cidadãos. Neste sentido o gotaspaulistas, que se propõe a ser um cronista das cidades acompanhará e registrará este processo. Continuaremos a proposta de análise do documento da ONU/HABITAT.

Aproveito para agradecer ao amigo James Smaul – arquiteto irriquieto irlandês, as imagens deste texto.

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